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Para evitar a gravidez indesejada, planejar é preciso

  • 1, novembro, 2018

Em agosto, uma multidão de mulheres com lenço verde amarrado no pescoço tomou as ruas de Buenos Aires, capital da Argentina. No tecido, liam-se os dizeres: “Educação para decidir, anticoncepcionais para não abortar, aborto legal para não morrer“. O lema da mobilização em torno do projeto de lei que descriminalizaria a interrupção da gestação não foi suficiente para aprová-lo – ele foi rejeitado em uma votação apertada -, mas deixa claro que a questão tem começo e meio antes de chegar ao tão temido e polêmico fim.

“Há uma gama de formas de proteção, que vai desde acesso a informação e educação até oferta de métodos contraceptivos adequados à mulher”, analisa a antropóloga Débora Diniz, da Universidade de Brasília (UnB), que milita há anos pelos direitos reprodutivos e sexuais femininos.

No Brasil, essa cadeia toda não funciona como deveria. Prova disso é que a taxa de gestações não planejadas é altíssima: mais da metade das mulheres que engravidam não estava preparada para isso. E a tendência é que o número continue crescendo. “Não temos metas de planejamento familiar nem de redução de gestação na adolescência, ao contrário do que ocorre em outros países. Eles traçam estratégias para alcançá-las”, avalia a ginecologista Carolina Sales, professora do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (USP).

Um exemplo de nação que conseguiu reverter esse cenário é o Quênia, na África, onde houve investimento justamente nas etapas clamadas pelas argentinas. “Eles têm um documento com diretrizes claras que incluem ações nas escolas, auxílio a adolescentes no sentido de incentivá-las a estabelecer objetivos de vida, além de distribuição de métodos contraceptivos, principalmente desses que não dependem tanto da memória da mulher”, explica Carolina.

Na vizinhança também temos bons exemplos. A taxa de gravidez não planejada no México é de 36% – frente aos 55,4% daqui. À primeira vista, o dado parece sem sentido, já que o número de brasileiras usando algum anticoncepcional é maior que o de mexicanas.

Mas o xis da questão está no tipo escolhido (veja os métodos na tabela ao lado). “Lá, mais mulheres apostam em métodos de longa duração, que não dependem das usuárias para funcionar”, revela Carolina. Em nosso país, a maioria opta pela pílula, que, mesmo se usada direitinho, tem um índice de falha superior.

Para o ginecologista Adalberto Kiochi Aguemi, que coordena o Departamento de Saúde da Mulher na Secretaria Municipal de Saúde de São Paulo, investir nesses contraceptivos de longa duração (LARCs, na sigla em inglês) é o caminho mais rápido para baixar as estatísticas. Falamos de opções como o dispositivo intrauterino, o famoso DIU, e o implante hormonal. “Mas ainda há muitos mitos e preconceitos em torno deles, inclusive entre profissionais da saúde”, observa.

E olha que não faltam dados demonstrando sua segurança e eficácia. Um estudo realizado por Carolina e sua equipe mostrou que, além de mais efetivos, esses métodos têm maiores taxas de satisfação e geram menos abandono entre as usuárias.

O DIU de cobre, para ter ideia, dura dez anos e registra apenas seis falhas a cada mil mulheres. Outro detalhe: ele é oferecido gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). Ainda assim, apenas 2% da população feminina recorre ao dispositivo.

De acordo com o Data SUS, três implantes de DIU foram feitos em um ano no Acre. No Amapá, dez mulheres decidiram pelo dispositivo intrauterino. São índices baixíssimos. Em geral, o desinteresse por essa opção tem a ver com motivos religiosos, desinformação ou pela falta de material no SUS.